“Ao luar e ao sonho, na estrada deserta”

Porto-Toronto Express

Qualquer texto começa na minha cabeça muito antes de ser publicado. Repetir as ideias, até que estas se esgotem, age como ponderação sobre o supérfluo, na procura da forma mais simples para que cada ideia descreva integralmente a realidade ou a imaginação.

Porém, desta vez, tive mais tempo do que esperava para escrever sobre o projeto Agva, a que é dedicado o próximo post. O intervalo, que se estendeu por várias semanas, tem a sua razão na radical mudança de chão. E porque o DisQuiet é também espelho de uma vida em desassossego, por aqui se conduz um Expresso Porto-Toronto que revive as sensações que Álvaro de Campos descrevia “Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra”:

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,

Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco

Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,

Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,

Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,

Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,

Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.

Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,

Sempre, sempre, sempre,

Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,

Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

 

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,

Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.

Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.

Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo

Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!

Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada

À direita o campo aberto, com a lua ao longe.

O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,

É agora uma coisa onde estou fechado

Que só posso conduzir se nele estiver fechado,

Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.

A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.

Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.

Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima

Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.

Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha

No pavimento térreo,

Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,

E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.

Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,

Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,

Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,

E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,

Acelero…

Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,

O meu coração vazio,

O meu coração insatisfeito,

O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,

Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,

Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,

Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…

11-5-1928   Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). _37

Sigo, sem haver Porto deixado, ou Toronto a que ir ter, porque as saudades do meu chão ainda não deixam. Estas são, de resto, inquietações que terei em comum com muitas outras pessoas, que têm vindo a perder o chão para ganhar vida. Mas isso são outros “portugais”, para aqui não chamados.

Como a vida digital não se afeta tanto por mudanças físicas, o que aqui se publica continua as servir o mesmo conjunto de intenções. O corpo e o espírito aguardam pelo dia em que seja menos difícil chamar de seu o chão de tão civilizada terra – a que agora piso. Enquanto isso não acontece, é tempo de “regressar” ao Porto no próximo post.

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